ARTIGOS
O produtor cultural do século 21
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Há cerca de dez anos, cultura no Brasil se escrevia com inicial
minúscula, quase como sinônimo de manifestação folclórica. Estava
presente nos planos de governo mas, na maior parte das vezes, como uma
pasta obrigatória com a qual não se sabia o que fazer. Ainda não
chegamos ao ponto ideal em que a cultura ganha o mesmo status da
economia e da comunicação. No entanto, o Brasil deu um grande salto no
momento em que passou a tratar a cultura como um ativo que pode, e
deve, contribuir para o desenvolvimento socioeconômico nacional.
Pode-se dizer que os ventos de mudança começam a soprar – como uma
brisa, é bem verdade – com a implantação da Lei Rouanet, em 1995. Se
antes um produtor cultural era tratado, de modo pejorativo, como um
“faz tudo” da cultura ou, pior, como um desocupado, a partir da Lei
ele passa a ter sua existência reconhecida, como um profissional
necessário para estabelecer elos entre público e arte. Com a Lei,
aumenta a demanda pelos serviços desse profissional e, com a demanda,
os primeiros sinais de fragilidade de sua formação. Surge, então,
oficializando e legitimando a profissão no Brasil, os primeiros cursos
de graduação: o primeiro, em 1995, na Federal Fluminense (UFF-RJ); e o
segundo, em 1996, na Federal da Bahia (UFBA). Esses cursos
representaram a sistematização dos conhecimentos inerentes ao setor.
Hoje, passados 15 anos da inauguração do primeiro curso de graduação
na área e, 9 anos, de seu reconhecimento pelo MEC, o setor mescla
profissionais graduados e empíricos, de gerações diferentes, que
passam a conviver em meio aos novos desafios.
Há 20 anos atuando como produtora cultural, Luiza Pires, sócia da
Liga, empresa de consultoria e gestão cultural, tem um currículo
invejável. Entre outros cargos, a Bacharel em História pela UFRGS foi
sócia da Cult Assessoria e Projetos Culturais (1998); coordenadora
administrativa da Casa de Cultura Mário Quintana (1999/2001);
assessora especial da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do
Sul; coordenadora Administrativa do Santander Cultural (2001/2002); e
coordenadora Administrativa do Projeto: III Fórum Social
Mundial/Cultural (2003). Mas o currículo não mostra os percalços que
Luiza encontrou pelo caminho. “Quando comecei a trabalhar, a profissão
não era reconhecida e o produtor era bastante depreciado. Mas há cerca
de sete anos, o cenário mudou muito. Acho que a formação universitária
instrumentaliza os profissionais e impede um contingente de
despreparados. O próprio mercado passou a ter condições de peneirar os
mais capacitados”, diz Pires.
A produtora também detecta mudanças no dia-a-dia da profissão. Ela
relembra que, em uma época em que a captação de recursos se dava,
prioritariamente, pelas redes de relacionamentos e pelo conhecimento
privilegiado, a lei de incentivo federal era pouco utilizada no Rio
Grande do Sul, enquanto as leis estaduais abundavam. “Há cerca de 8
anos que a lei estadual não é usada e o Sul é totalmente dependente da
lei federal. Ainda mais porque enquanto o número de editais promovidos
pelo MinC aumenta, o de editais privados escasseia. O lado ruim desta
história é que os produtores culturais acabam cumprindo o papel de
produtores e de captadores”, explica a produtora.
Foi justamente esse cenário que levou o administrador e produtor
gaúcho Alê Barreto, conhecido na rede como produtor independente, a se
mudar para o Rio de Janeiro, em 2007. Ele queria experimentar as
diversas possibilidades da profissão ao invés de ficar restrito à
estruturação de projetos para captação em leis de incentivo.
“Trabalhar apenas com a Lei Rouanet gera um contexto muito frágil em
termos de sustentabilidade. Além do que, as leis de incentivo dão a
falsa sensação de que o produtor cultural é aquele que formata
projetos, quando ele é o responsável por criar pontes, estabelecer
diálogos entre a criação artística e o público. Produtor cultural não
é um mero formatador de projeto, mas também não é faz tudo”, afirma
Barreto.
O produtor gaúcho, que atua na área desde os 29 anos, diz que começou
junto com o Governo Lula, em 2003, e que viu a profissão crescer junto
com as ações do Ministério da Cultura. “A cultura que estava sempre
entre os últimos orçamentos da União, com a atual gestão ganhou uma
projeção tão interessante quanto a de outros ministérios. O olhar
mudou e entraram na pauta dos debates temas como desenvolvimento,
economia e tecnologia. Podemos contar até com séries históricas de
pesquisas importantes, como as do IPEA, do IBGE e da Casa de Rui
Barbosa”, opina o produtor. Para ele,a questão da formação
universitária também tem contribuído para a profissionalização da
área. No entanto, alerta para a necessidade de diversificação do olhar
e das experiências. “Os cursos de produção cultural estão atrelados às
ciências da comunicação, o que cria um contexto único, quando existem
outros caminhos para a leitura da cultura, que vão da antropologia à
economia”.
Para dar vazão às suas ideias e estabelecer um diálogo com outros
produtores, Alê criou em seu blog a Rede de Notícias Culturais
Sustentáveis. “Falta entrosamento entre os produtores culturais que
enxergam uns aos outros como concorrentes. Com essa iniciativa quero
estimular a cooperação e a troca de experiências. O mecanismo é
simples mas, se der certo, poderá ser uma fonte de informação útil a
todos os elos da cadeia”, explica. Para ele, entre os desafios que o
produtor do século 21 tem a enfrentar está a necessidade de conexão,
seja com seus pares ou com profissionais de outras áreas. “Acho que o
grande desafio para o produtor cultural, hoje, seria pensar a sua
profissão mais conectada com aquelas que a tangenciam. O que significa
transitar entre jornalistas, profissionais de informação, economistas.
Enfim, perceber que o trabalho é ampl o e que ele pode atuar em várias
frentes”, conclui Barreto.
Acesso pergunta: na sua opinião, qual o perfil do produtor cultural do
século 21?
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