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O Brasil de baixo para cima

"BINHO Perinotto" - Fábio Riani Costa Perinotto

Por Blog Acesso: http://www.blogacesso.com.br/?p=2046

 

Há cinco anos, Célio Turino é o secretário da Secretaria da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura. Ele acaba de lançar o livro Pontos de Cultura – O Brasil de baixo para cima, onde relata sua experiência à frente do programa Cultura Viva. No último dia 12, inaugurou seu site oficial, com conteúdo multimídia e interação com blog e Twitter.

Historiador por formação e vocação, Turino foi secretário de Cultura do município de Campinas/SP (90 – 92), onde criou as bases do que se tornaria o Programa Cultura Viva: as Casas de Cultura. Também foi diretor do Departamento de Programas de Lazer na Secretaria de Esporte da cidade de São Paulo (2000 – 2004), criando o projeto Viva São Paulo. Em 2004, o então ministro Gilberto Gil convidou Turino para iniciar um projeto de parceria com as ações culturais das comunidades brasileiras. O Cultura Viva foi escrito em duas noites, em um quarto de hotel.

Ao final de 2009, temos mais de dois mil Pontos de Cultura espalhados pelo país. Milhares de brasileiros que ganharam voz por meio dessa política pública que começa a inspirar projetos em outros países da América Latina. Confira a seguir uma entrevista que o secretário Célio Turino concedeu com exclusividade ao Blog Acesso.

Como você enxerga o programa Cultura Viva, principalmente os Pontos de Cultura, desde sua implantação?

Em 2004, o Ministério da Cultura iniciou ações no sentido de democratização e acesso à cultura, dentro do Cultura Viva. O aspecto mais interessante desse programa é trabalhar com mudanças de paradigma. Seu primeiro diferencial é o acesso a partir da produção. Geralmente quando se fala em democratização, pensamos em levar a cultura às comunidades. Mas partimos do inverso, partimos em busca da potência. Pegamos o que as comunidades já fazem, e a partir disso articulamos as ações. Normalmente, um projeto assim começaria pela construção de um prédio, mas abolimos isso e nos voltamos para outro foco: investir no fluxo. São as pessoas que garantem a cultura, não a estrutura física. Não há nenhum Ponto de Cultura igual a outro, o único elemento comum a todos eles é o estúdio multimídia. Isso demonstra nossa preocupação: fornecer os meios para quem já produz cultura. Com o estúdio, eles podem fazer vídeos, fotos, arquivos de áudio e outros materiais pertinentes à comunidade.

 

Este ano foi positivo para os Pontos de Cultura? Quais os planos para 2010?

Fazendo um balanço de 2009, tenho certeza do êxito do projeto.  Hoje, os Pontos de Cultura ganham reconhecimento no Brasil e também no exterior. Há um projeto para implantação dos pontos nos países do Mercosul. Estive em um congresso em Mar Del Plata na semana passada. A Argentina deve ser o primeiro país a adotar nossa idéia. 2010 será o ano de consolidação da rede, do conceito, de sistematização do processo. Normalmente, na formulação de políticas públicas, o mais importante é gestão. É claro que temos gestão, mas o que antecede ela é a filosofia, o pensamento que embasa as ações. De acordo com pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no ano que vem chegaremos a 2.500 Pontos espalhados por mil municípios brasileiros, beneficiando diretamente oito milhões de pessoas.

 

Qual o papel dos Pontos de Cultura dentro do Programa Cultura Viva?

Os Pontos de Cultura fazem parte de um programa muito amplo. O Ponto é um ‘sedimentador’, que atua no território. As comunidades continuam fazendo o que já costumavam, mas de uma forma facilitada. Enquanto isso, o Cultura Viva lança editais e realiza várias ações ao seu redor, como projetos de educação e saúde, para beneficiar a comunidade.

 

Um dos objetivos do programa é a sustentabilidade. Já podemos perceber isso nos Pontos de Cultura?

O tripé conceitual do projeto é sustentabilidade – autonomia – empoderamento social. O Ponto de Cultura é uma parceria público-social. O investimento que fazemos em um Ponto é relativamente pequeno, mas muito significativo, pois chega diretamente na ponta, potencializando o que já é feito. Minha intenção é que o convênio com os Pontos seja renovado por mais de três anos, não para que eles suguem recursos do governo, mas para que consigam ter base e planejar seu futuro. Hoje temos Pontos em diversos estágios de autonomia, sustentabilidade e empoderamento social. Nem todos chegaram no patamar ideal.

 

Desde 2007, anualmente acontece um grande encontro nacional com todos os Pontos de Cultura do país, promovendo um intercâmbio de saberes e experiências entre eles. Qual o papel desse encontro, a Teia, para o andamento do projeto?

A idéia da articulação é muito importante. O Ponto de Cultura não pode ser isolado, ele só se desenvolve quando está articulado em rede. A Teia é a rede presencial, que tece essa relação. Ela chega à sua quarta edição ano que vem, em Fortaleza.

 

Considerando os papéis da cultura para a sociedade e para o desenvolvimento nacional, o que representam os Pontos de Cultura nesse contexto?

Por muito tempo eu e muitos outros historiadores pensamos que a economia determinava o pensamento, as mentalidades. Hoje, após a experiência com os Pontos de Cultura, viajando o Brasil de cima a baixo, inclusive nos lugares mais marginalizados, vejo que a cultura pode determinar a economia. Mudanças de postura, de valores, mudam muita coisa. A cultura é fundamental. Com o Cultura Viva, queremos quebrar hierarquias, construir novas legitimidades, mesclar o erudito com o popular, colocando os dois no mesmo patamar. Cultura é tudo que cada um faz.

 

Como foi sua experiência com o recém lançado Pontos de Cultura – O Brasil de Baixo Para Cima?

O livro traz o meu olhar, ele até chega a ser meio literário. Mais de um Célio escreveu aquelas páginas. Tem o gestor público, que pensa a cultura brasileira e trabalha com isso há quase 30 anos. Ele apresenta fundamentos filosóficos, formas de gestão, histórico do projeto etc. Um outro olhar é do Célio que narra histórias do Brasil. E apurando o ouvido para as histórias dos outros, encontramos nós mesmos. Então essa é a minha história. Eu escrevi o livro durante quatro anos, em aviões, hotéis e trechos das viagens. Descobri coisas sobre mim mesmo nesse processo, eu até me vi criança com meu avô, foi uma experiência bastante reveladora.

   

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